Cultura

Museu Théo Brandão e o Palacete Boaventura de Amorim

Prédio do Museu Théo Brandão em meados do século XX

Publicado em 28 de setembro de 2020 por Ticianeli em Instituições

Museu Théo Brandão de Antropologia e Folclore foi criado em 20 de agosto de 1975 como uma ação da extensão cultural da Universidade Federal de Alagoas (UFAL), subordinado à Reitoria e recebendo diretamente o apoio da Pró-Reitoria de Assuntos Estudantis e Comunitários.

Sua denominação homenageia o professor, médico e folclorista Théo Brandão (Theotônio Brandão Vilela), que durante a vida acumulou rico acervo. Foram seus exemplares de arte popular que serviram para a abertura do Museu.

Após à sua morte, em 1982, a Universidade Federal de Alagoas também recebeu da família fotografias, folhetos de cordel, livros, discos, filmes em super-8, fitas de vídeo, slides e fitas cassete de antigas manifestações da cultura popular.

A primeira instalação do Museu foi em uma das salas do Campus Tamandaré, no prédio da antiga Escola de Aprendizes Marinheiros, Pontal da Barra, onde desde 31 de março de 1973 funcionava os cursos da Área de Humanas da Ufal.

Théo Brandão lembrou, durante um pronunciamento em 1987, que tudo começou quando levou “as pequenas e desvaliosas peças de nossa coleção” para uma sala cedida pelo professor Elias, coordenador administrativo do Campus.

Auxiliado por Fernando Lobo, Nuzi Mendonça, alunos e funcionários (Poti, Pinheiro Mercedes e Ferreira), “conseguimos atabalhoadamente dispor de estantes e prateleiras feitas de ocasião”.

Poucos meses depois, com o início das aulas, o Museu perdeu sua sala e foi transferido, ainda no Campus Tamandaré, para a antiga residência do comandante da escola de Aprendizes de Marinheiros, a Casa 3, onde havia funcionado a Prefeitura Universitária. Esta nova sede foi inaugurada no dia 20 de agosto de 1975, mesmo dia em que se instalou oficialmente o Museu.

Funcionava entre 14h e 18h, nas segundas, quartas e sextas-feiras. A primeira exposição foi aberta no dia da criação do Museu e inauguração do prédio. O tema era “Alagoas e as reminiscências Portuguesas”.

Em 1977, a Ufal transferiu os cursos de Humanas para a Cidade Universitária no Tabuleiro do Pinto e novamente o Museu esteve na iminência de ficar sem suas instalações.

Como no final de 1976 a Ufal tinha fechado a Residência Universitária Masculina (RUMA) e o Lar da Universitária Alagoana (LUA), o prédio nº 1.490 da Av. da Paz foi cedido ao Museu Théo Brandão.

Os estudantes que utilizavam as residências universitárias — eram 87 alunos — passaram a receber uma Bolsa de Manutenção, que consistia em uma verba mensal de Cr$ 1.100,00 e direito à alimentação no Restaurante Universitário, pagando Cr$ 2,00 por refeição.

Residência Universitária Feminina de Alagoas, que funcionava na Av. da Paz e era mais conhecida como Lar das Universitárias de Alagoas (LUA), tinha sido instalada em 1964.

Solenidade de inauguração do Museu Théo Brandão em 20 de agosto de 1977. Théo Brandão, governador Divaldo Suruagy, pró-reitor Audálio Cândido dos Santos, reitor Manoel Ramalho e, discursando, vice-reitor João Azevedo

Quando ali se instalou o Museu já era administrado pela antropóloga e ex-aluna de Théo Brandão, Vera Lúcia Calheiros Mata. Sua equipe era formada por Tereza Braga, José Carlos da Silva, Enéias Tavares dos Santos, Carmen Lúcia Dantas e Celso Brandão.

Como a coleção era pequenaVera CalheirosCarmen Dantas e Celso Brandão realizaram várias viagens pelo interior de Alagoas garimpando obras que pudessem ser adquiridas para aumentar o acervo do Museu.

Carmem Lúcia Dantas

A museóloga Carmem Lúcia Dantas assumiu a direção do Museu Théo Brandão em 1978 e permaneceu neste cargo por oito anos.

Penedense nascida em 27 de setembro de 1945, Carmen Lúcia Tavares Almeida Dantas realizou uma gestão histórica ao abrir o Museu para a divulgação da cultura popular. Além disso, contribuiu decisivamente para se criar em Alagoas uma consciência museológica.

Graduada em Museologia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro e mestra em Literatura Brasileira pela Universidade Federal de Alagoas, aperfeiçoou-se ainda em Planejamento Urbano e Patrimônio Cultural em Berlim, na Alemanha.

Carmem Lúcia Dantas foi professora de História da Arte na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras do CESMAC e depois de 1986 passou a lecionar a mesma disciplina nos cursos de Artes, História, Letras e Comunicação do no Departamento de Artes da UFAL.

Entre 1991 e 1992, ensinou História da ArteFolclore e Museologia no curso de pós-graduação em Administração de Turismo promovido pela UFAL, com apoio da CAPES, e de cursos de História da Arte promovidos pela iniciativa privada, em 1996 e 1997.

Em sua primeira passagem pela direção do Museu Théo Brandão, Carmem Dantas demonstrou sua dedicação à preservação da memória e patrimônio histórico, colocando a instituição num patamar elevado, passando a ser referência em sua área de atuação.

Quando deixou a direção do Museu em 1986, o velho prédio, que não vinha recebendo a manutenção adequada, deu mostras de que passava a ser inseguro. Houve então a recomendação técnica para a retirada do acervo daquele local.

Dias antes da mudança para o Espaço Cultural da Ufal na Praça Sinimbu, fortes chuvas em Maceió provocaram o desabamento de parte do teto do andar superior. Houve inundação e fichas, anotações das peças e documentos foram destruídos ou danificados.

Já sob a direção de Eliane Moura Soares, ocupou por um ano uma sala do 1° andar do Espaço Cultural e no ano seguinte passou a utilizar salas do andar térreo.

As condições do antigo prédio da Reitoria também eram precárias. Os acervos fotográficos, sonoros e documentais sofreram danos por não estarem adequadamente armazenados. Ficavam em caixas de papelão. Do Museu continuou funcionando apenas a biblioteca.

Entre 1996 e 1997, a gestão da instituição passou para a antropóloga Sílvia Aguiar Martins. Foi ela quem cobrou a elaboração de um regimento interno, que chegou a ser redigido, mas não foi analisado pelo Conselho Universitário.

Sílvia pretendia atribuir ao Museu um lugar estratégico como centro de pesquisas da Ufal, antigo sonho de Théo Brandão.

Foi substituída interinamente foi José Carlos da Silva, então o mais antigo funcionário do Museu.

Nessa época, a Pró-Reitora de Extensão, professora Margarida Santos da Silva, liderou a mobilização em busca de recursos e de apoio para a recuperação do prédio da Av. da Paz.

Carmem Dantas, que reassumiu a direção do Museu em 1999 (era presidente do Conselho Estadual de Cultura) a convite do reitor Rogério Moura Pinheiro, participou ativamente desta campanha e ajudou a conseguir, ainda no seu primeiro ano, o envolvimento do senador Teotônio Vilela, sobrinho de Théo Brandão.

Teotônio Vilela foi quem viabilizou junto à Caixa Econômica Federal o financiamento para a restauração. O Museu foi incluído no projeto daquela instituição de restauro de imóveis históricos, como parte das comemorações dos 500 anos do Brasil.

A recuperação do prédio começou imediatamente, já se sabendo que o senador viçosense também havia conseguido recursos da Petrobrás para a reinstalação do Museu, garantindo higienização e ampliação do acervo, exposição das peças e adequação do circuito (iluminação e climatização).

Em 2001, o Museu criado por Théo Brandão voltou a ocupar sua sede na Av. da Paz, mas somente foi aberto ao público em junho de 2002.

A nova exposição foi montada sob a coordenação de Carmem Dantas, que permaneceu à frente do Museu até 2004. A curadoria foi do museólogo e antropólogo Raul Lody.

Em sua exposição permanente pode-se encontrar peças nordestinas originadas em Caruaru, com a cerâmica figurativa do Mestre Vitalino, mas predomina a arte dos alagoanos, a exemplo das moringas antropomorfas do artista Júlio Rufino e as esculturas em madeira dos artesãos Antônio de Dedé e Resêndio.

“É possível, ainda, encontrar no Museu, indumentária de folguedos natalinos com suas ricas coroas e outros adereços, brinquedos populares dos mais diversos materiais, objetos de fibra vegetal (caçuás, cestas, abanos, chapéus, etc), cerâmica utilitária da etnia Kariri Xocó, do interior de Alagoas, peças de culto afro-brasileiro, ex-votos e outros elementos provenientes do catolicismo popular, rendas e bordados (filé, labirinto, renda de bilros, boa-noite, singeleza, rendendê, etc.) e tantos outros objetos confeccionados por artistas”, divulga a Ufal.

Seu acervo fotográfico tem aproximadamente 3.700 fotografias em papel fotográfico e 800 fotografias em negativos e diapositivos.

O Museu também foi dirigido por Leda AlmeidaWagner ChavesFernanda RechenbergNadir NóbregaJosé Acioli Filho, este a partir de março de 2018. Em 2020 tomou posse a equipe liderada por Victor Sarmento.

Sopa de Pedra

Carmem Dantas recebe, em 2 de setembro de 1978, a visita do Reitor Manoel Ramalho e do diretor do Museu Nacional, prof Castro Faria ao Museu Théo Brandão

Théo Brandão, quando se referia ao início da instituição, definia o acervo inicial como as pedrinhas do Museu Sopa de Pedras. Explicava contando a história que está catalogada entre os principais Contos Populares do Mundo pelo The Types of the Folktales.

Esta é a versão extraída da obra Os melhores contos de Portugal, de Câmara Cascudo.

Sopa de Pedras

Andava um frade tirando esmolas para seu convento e num dia quente, horas de almoço, chegou à porta de um lavrador, fazendo seu peditório. Não lhe deram nada. Pediu o frade que lhe deixassem entrar para refrescar-se um pouco. Entrou, sentou-se e como estava com muita fome, foi dizendo:

— Vou fazer uma sopa de pedra!

O lavrador, a mulher e filhos, riram da facécia [gracejo] do homem. O frade saiu para a estrada e trouxe um calhau. Lavou-o, enxaguou-o. Depois pediu que lhe emprestassem uma panela. Deram-lha. Pôs a pedra ao lume, a pedra com água e umas pitadinhas de sal, que lhe permitiram.

Lá depois começa a água a ferver e o frade a dizer — Com um nadinha de unto [gordura de porco] é que seria de lamber os beiços.

Deram um bom pedaço de unto. Foi para a panela. E volta o frade a murmurar:

— Está bom, está; mas umas hortaliças davam-lhe um gosto…

Trouxeram couves, nabos, uma boa cenoura. Tudo ficou na panela, borbulhando num cheiro que entontecia.

E o frade ainda diz: — Quase a contar, mas um pouco de chouriço daria um caldo de Rei!

— Sempre lhe quero ver o fim! disse o lavrador. — ô Mulher! Dê lá o chouriço ao frade…

Escadaria Museu Théo Brandão antes da restauração

O chouriço caiu na panela. Um bom naco, por sinal. Espalhava um perfume de encher d’água as bocas desocupadas.

O frade pediu uma malga [tigela]. Tirou o pão do alforje. Sentou-se, acomodou-se, encheu a malga e a foi esvaziando e enchendo até que a panela ficou vazia, a rebrilhar. Lá no fundo, luzia a pedrinha.

O frade retirou-a, passou-lhe água, enxugou-a.

— Serve para outra vez! Fiquem-se todos com a graça de Deus e vejam como se faz uma sopa de pedra

E se foi embora.”

Théo Brandão comparava o acervo inicial de sua coleção com as pedrinhas. E, como no conto, pouco tempo depois o Museu “encheu a panela” e se consolidou. É atualmente uma das referências no país em sua área de conhecimento.

Palacete Boaventura de Amorim

As informações a seguir sobre o histórico do prédio que abriga o Museu Théo Brandão já foram publicadas no Portal História de Alagoas, mas serão aqui também reproduzidas.

O jornal Gutenberg de 18 de fevereiro de 1908 anunciou naquela data e nas edições seguintes que se encontrava a venda uma “grande casa sita à rua do Saraiva com frente para o mar, junto a Ponte dos Fonsecas, com grandes cômodos para família de tratamento, compostos de 4 salas, 7 quartos, alguns muito espaçosos e assoalhados, um primeiro andar com grande salão para dormitórios circulado de janelas para todos os pontos, sala de copa, grande cozinha com fogão inglês, extensíssimos terraços cobertos para passeio, jardim com gradil e portão de ferro, grande quintal murado com portão e saída para os fundos, latrina patente, banheiro muito bom com 2 caixas de água, água potável em abundância, cacimba com a competente bomba, grande terreno ao lado para continuação do jardim, instalação de luz elétrica & & a tratar com o proprietário no Bazar de Novidades, Rua do Comércio, 106 — Maceió”.

Bazar das Novidades era de propriedade do português Boaventura Rodrigues de Amorim, então casado em segunda núpcias com Maria Rodrigues de Amorim, viúva de Manoel Rodrigues.

Outra prova do vínculo deste proprietário com o imóvel anunciado à venda em 1908 foi encontrado no Gutenberg de 26 de abril de 1906. É uma cobrança de Imposto sobre taxa sanitária relacionando os moradores da Rua Saraiva. Lá consta que os prédios de nº 141 e 143 pertenciam a Boaventura de Amorim.

O de n° 143 era o imóvel do anúncio e que muitos anos depois recebeu o Museu Théo Brandão na Avenida da Paz.

Boaventura de Amorim ficou viúvo de Maria Duarte Amorim em 1896. Nesse período residia em um sobrado na Rua 15 de Novembro, atual Rua do Sol, indicando que ainda não tinha construído o prédio da Rua Conselheiro Saraiva, futura Av. da Paz.

Quem adquiriu o palacete em 1908 foi outro português, o comendador Eduardo Ferreira Santos, que era também comerciante e tinha se estabelecido na Bahia, onde, em 1882, podia ser encontrado na Loja de Modas, na Rua Conselheiro Dantas, nº 19, em Salvador.

Casado com Adelina Ferreira Santos, com quem teve a filha Georgina Ferreira Santos, expandiu seus negócios para Maceió, onde constituiu a firma Ferreira Santos & Cia.

Duas publicações em jornais indicam que mesmo tendo se destacado nos negócios e comércio local, continuava residindo em Salvador.

No Correio do Brazil de 22 de março de 1904, jornal publicado em Salvador, Bahia, uma nota informava que o “estimado sr. Eduardo Ferreira Santos” havia chegado da Europa, mas já estava de partida para Maceió. “O estimado negociante vai até aquela capital a negócios seus comerciais, demorando-se sua exma. Família nesta capital”.

Em 1906, quando Eduardo Ferreira já era vice-presidente da Associação Comercial de Maceió, o Gutenberg, de 4 de setembro, informou que o “comendador Eduardo Santos”, acompanhado de esposa e filha, haviam regressado a Alagoas. “O sr. Ferreira Santos acha-se hospedado no aprazível Hotel Nova Cintra”.

Quando adquiriu o palacete, em 1908, já era diretor-tesoureiro da Companhia das Águas de Maceió, cargo onde permaneceu até 1º de junho de 1909. Em 1911 era um dos diretores da Companhia Progresso Alagoano.

Seu vínculo com o imóvel está comprovado por ter requerido, em 23 de setembro de 1909, autorização para “fazer diversos reparos no prédio nº 143 à rua do Saraiva”. Também requisitou permissão, em 7 de outubro do mesmo ano, para “fazer reparos no muro e calçada do seu prédio nº 137 a rua Saraiva”. Era um imóvel vizinho.

comendador Eduardo Ferreira faleceu em Fernão Velho no dia 14 de agosto de 1917.

Sua filha única, Georgina Ferreira Santos, casou-se em 31 de janeiro de 1910 com o médico Arthur Machado (Gutenberg de 27 de janeiro de 1910).

O dr. Arthur de Mello Machado era filho do comendador José Teixeira Machado, que morava em uma chácara no Mutange. Formou-se em Medicina na Bahia em dezembro de 1907. Dias depois, em 7 de janeiro, viu sua irmã, Rita de Mello Machado, morrer em seus braços vítima de tuberculose.

Foi o dr. Arthur quem reformou o palacete utilizando decorações em gesso, aplicadas por dois artesãos portugueses, e acrescentou as varandas externas reconhecidas por sua cúpula mourisca.

De arquitetura eclética, o prédio foi um marco na então Rua Conselheiro Saraiva. Ficou conhecido por muito tempo como Palacete Arthur Machado.

Com a morte do seu proprietário em 1951, o imóvel passou para o filho do casal, dr. Eduardo Ferreira Santos Machado, que anos depois o alugou a Manoel Miranda.

Passou a ser utilizado como um anexo do Hotel Atlântico, que lá permaneceu até 1962, quando o imóvel foi desapropriado pela União e entregue à Universidade Federal de Alagoas.

Entre 1999 e 2001, foi reestruturado e restaurado. Voltou a funcionar em junho de 2002. Nessa reforma, o interior do prédio sofreu algumas descaracterizações.

O palacete foi tombado pelo Pró-Memória por autorização do Decreto nº 5.302, de 30 de fevereiro de 1983.

*Fontes: Diversos jornais, livro “Documentário Histórico da Ufal” e o artigo “Identidade, Narrativa e emoção no Museu Théo Brandão de Antropologia e Folclore”, de Wagner Neves Diniz Chaves.

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